sábado, 31 de outubro de 2009

Meu encontro com o simpático Tomas Alfredson






(por Guilherme Nasser Gazotti)

Após contemplar a bela vertigem d'Os Gêmeos novamente, chego ao auditório onde os monitores de amarelo não sabem como arrumar aquela fila que em pouco tempo foi se tornando gigante. Alunos, não alunos, atores, atrizes, professores, curiosos, estranhos, cabeludos, barbudos, e pessoas.
Sou o primeiro da fila, junto a mim alguns amigos, mas bem mais junto a mim um rapaz de uns 30 anos mais ou menos curiosamente começa a chamar a atenção. Em percepção comum, todos ali afirmariam que ele tinha algum problema de retardo mental ou qualquer outro que o inferiorizasse. Eu deduzi esquizofrenia, e ao longo de nossa conversa ele começou a demonstrar um interesse no cinema e em livros, e começou a me perguntar bastante sobre "Deixa ela entrar" o filme a ser projetado, que eu falei que já tinha visto. O rapaz tirava conclusões sobre outras coisas que conversamos que eu achei genial. Eu ria as vezes pela forma engraçada que ele falava, mas era uma inocência e um interesse fora do normal.
Bem, a grande porta se abriu e entramos, no meio do cinema ficamos eu e mais os amigos. Lá na frente quase na primieira fila, por opção sentou-se o rapaz, que agora devamos esquecer. SHIU! o filme vai começar.
O filme sueco começa com os créditos em um fundo preto com névoa, e sem música alguma. Ideal para perceber que as pessoas se sentem mais incomodadas em ficar em um silêncio absoluto durante alguns minutos, do que enfrentar o trânsito por horas nessa cidade.
Primeira cena (...) Última cena.
O filme termina, algumas pessoas saem, e naquela meia luz ainda, e sobre o êxtase da pós obra-prima acessada, ouve-se uma voz que avisa: Mais cinco minutinhos e começamos o debate.
Senhoras e senhores: Leon Cakoff. E entra o criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e crítico de cinema. Belo pseudônimo, Cakoff.
-Tomas, e entra o gênio. Por último anuncia-se o nome da tradutora de Tomas que eu não me lembro agora.
Cakoff começa o debate fazendo uma declaração de amor para a película. "Esse é um dos filmes da minha vida, não é uma história de terror, é uma das histórias de amor mais lindas que já vi" e passa a palavra para o diretor que começa falando que está muito feliz de estar no Brasil e principalmente nesta cidade que chove o dia todo. Após uma breve apresentação de seu filme, nota-se sua timidez e nervosismo. Ele abre então para as perguntas do público.
Alfredson responde como foi trabalhar com as crianças, diz que é mais fácil, que os atores mirins não entendem o que é uma sequência, que o trabalho de cena por cena, sem outras ligações foi essencial. Curioso também, é que ele não entregou o roteiro para as crianças lerem e tirarem suas atuações através dos olhos, elas tiraram através dos ouvidos, pois o diretor, lia o roteiro e dizia como deveria ser feito, eles apenas copiavam, claro, com a genialidade de atores tão jovens. Para minha tristeza, Tomas diz que não tem nenhum diretor de cinema na atualidade que usa como diretriz, para alguma idéia que seja, ele disse que procura assistir os filmes como expectadores normais que vão ao cinema. Bem, eu achei muitas cenas do filme parecida com a direção de Gus Van Sant, quando essa pergunta foi feita, Van Sant veio a minha cabeça, mas, enfim...
Tomas falou sobre os direitos autorais do livro que foram vendidos a Hollywood. Em uma crítica demonstrou seu medo quanto à produção estadunidense que será dirigida por Matt Reeves (Cloverfield). Disse que não entende porque os estados unidos tem dificuldades em aceitar filmes falados em língua estrangeira. Talvez seja porquê eles querem comer a ultra mega pipoca do cinemark e não querem se preocupar em ficar lendo as legendas. Enfim, vamos esperar esse remake.
As perguntas sobre a têndencia vampirescas foi inevitável, sobre isso Tomas foi bem breve, disse que quando começaram a trabalhar o projeto de Deixa ela Entrar, quatro anos atrás, não existia esse fascínio. E quanto aos filmes e seriados que nos assombram pela sua péssima narrativa, Tomas disse que nunca viu nenhum.
As peguntas aconteciam, quando de repente, o rapaz da entrada na fila resolveu perguntar: "A cena final quando ela está dentro da caixa, no trem com o menino, ela virou um gatinho?" Todos caíram na risada, menos Tomas que demorou pois era traduzido sobre tal pergunta capciosa, e enfim riu. Eu não conseguia parar de rir. Tomas, em tom de brincadeira e em inglês, respondeu que nunca tinha ouvido essa suposição, mas que podia ser, valiam todas interpretações, resposta que ficou sem tradução. Demorou-se até todos recuperarem seu fôlego e sua concentração quebrada pela grande pergunta.
Foi o momento mais verdadeiro do evento, eu fico imaginando, como é ver os filmes com aquela cabeça, as interpretações fantásticas que deve-se tirar depois. Gostei muito da pergunta, e da forma como foi feita. Ele não esperou o microfone chegar, nem respeitou a ordem, apenas interrompeu, falando alto, como se ele precisasse ouvir a resposta para continuar a viver.
Tomas continuou respondenso as perguntas, e uma de suas afirmações, a que mais me chamou atenção na verdade, foi a de afirmar. "Oskar and Eli are the same person, they are the same person, Eli can be the dark side of his live" e completou dizendo que talvez fosse possível que Eli fosse a imaginação de Oskar.
Sobre outras coisas mais técnicas, Tomas Alfredson, falou de alguns métodos no processo de criatividade, brevemente passou ao público três. A primeira, é de ouvir uma mesma melodia todos os dias, e criar através desse sentimento de continuidade, para não destoar a criação. A segunda, vai um pouco nesse sentido, quando ele diz que se imagina subindo uma reta segurando uma corda, sem poder se soltar. E a terceira é a de criar baseado em uma imagem estática, um quadro por exemplo.
O diretor deixou claro que seu filme é aberto as diversas interpretações do público. Em minha primeira interpretação, ajudada com uma conversa com meu amigo Thiago Mattar após a primeira vez que vimos, foi de que o filme resgata toda a intenção dos vampiros da antiguidade, deixando os clichês de lado, e utillizando a sedução e manipulação. Eli é uma pessoa má, que usa a inocência de um garoto sem amigos, que acaba se apaixonando por ela/ele, e se torna corajoso de um dia para o outro. Oskar acha então que se libertou dos seus medos, que ele agora é alguém que enfrenta seus problemas, porém fica preso à Eli o resto de sua vida.
Isso é o mais interessante quando nos deparamos com obras primas, diversas interpretações. Até mesmo achar que a garota virou um gato no final.
O simpático Tomas terminou o debate tirando uma foto do público com seu iphone amarelo.
este conto é baseado em fatos reais, nenhuma passagem é ficcional.

Um comentário:

Thiago Mattar disse...

Não acredito ainda que perdi, uma pena. Seu texto ficou maravilhoso, parabéns. Eu amo esse filme!