terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Nós

NÓS
(por Guilherme Gazotti)

Ele dirigia na estrada vazia, como se fosse o único caminho de sua vida, sem escolhas, ele aumentava o volume do rádio e sorria.
Aquela reta que parecia não ter fim, que ia além do horizonte do oceano, iluminou-se, e agora ele olhava para o lado e sorria ainda mais.
Seria de uma total perfeição que nada mais parecia efêmero. Parou o carro ao lado daquela montanha de flores amarelas, deitou na grama macia e ficou olhando o céu que reluzia o sorriso mais lindo.
Deitada, ela segurava seu braço com as duas mãos e colocava a cabeça em seu ombro e não dizia nada. Por horas ficaram, não tinham fome, não tinham sede, o momento de transe era essencial para seus corações baterem sem descanso.
O descanso eterno dessa vez estava presente na carne. Queria passar o melhor carnaval de suas vidas, o verão mais colorido ouvindo as músicas que os faziam pular separados e a se olharem de vez em quando, como se dissessem que nada daquilo fazia sentido se não houvesse aquela boca para beijar no fim da noite.
Juntava-se repentinamente o casal, um abraço no ritmo da canção, suor e risos.
Pois assim ficaram deitados na grama imaginando o que aconteceria se chegassem ao final daquela reta deserta.
Um velho passou pela estrada dirigindo seu carro, que tinham balões azuis e amarelos voando no vento, ele usava uma cartola verde, seu carro colorido buzinava a cada metro percorrido. Saíram do transe e levantaram os troncos para observar a passagem do único automóvel. E tinha um balão bem ao fundo, mas não perceberam até que o velho passasse, riram de toda aquela maluquice e depois alguém observou o balão e comentou. Em um minuto estavam no balão, sobrevoando o verde daquele local, viram uma queda d água e outras coisas mais.
Era impressionante como tudo o deixava feliz ao lado daquela pessoa.
Uma pequena casa na frente de onde descera o balão foi onde eles passaram a noite. Tomaram vinho, suaram sangue.
Nada é tão bem visto somente com os olhos, é preciso coração para entender cada detalhe.
O detalhe de um sorriso, um olhar que poupam as palavras. Um carinho na orelha, um beijo no canto do pescoço. Um programa que não foi como esperado, mas que souberam tirar proveito de uma forma inexplicável. A sintonia perfeita entre um metro e oitenta dele e um metro e sessenta e pouco dela.
De manhã acharam o carro, e foram em direção ao litoral. AZUL.
A maré lhes dizia bem-vindos. Parabéns por confiarem na reta e ir até o fim.
E assim foi.
Depois disso foi carnaval...
Voltaram para descansar e na hora de se separarem, o abraço foi de tamanha intensidade que tocavam sinos de enfeites vienenses, serpentinas enroladas em seu corpo ela levava porta adentro.
Na maioria das vezes que pensamos que tudo será tão perfeito, não acontece o que se espera, e mesmo sendo bom, sempre existe a desilusão de não atingir as expectativas, pois olhamos tudo, na maioria das vezes, somente com os olhos.
Uma viagem de carnaval para se guardar na memória, abrir os olhos, são sete e meia, e perceber que tudo não passou de um sonho.

(…)

Pode até ser que isso não dê em nada,
Pode até ser que o barco vire no final, com o sol lá no alto, o mar calmo


Mas as suposições eu deixo pra lá, e fico pra cá da tempestade...
Enrolo-me nos nós, e cá pra nós, estamos sós, um dia a sós


E faz tempo que eu não saio por aí, sem saber aonde ir
Ela me olha nos olhos e eu me perco nos braços

Nós somos fracos pra lutar com o coração?

Só de pensar em ir e ter que deixar por aqui, já me aperta aquele nó...
Eu sei que preciso me contentar por já gostar de alguém que goste também.
Nós.

5 comentários:

nelsonbrazil disse...

"E esta forca inoxidavel da repsodia preludica que as palavras laconias definem os momentos sublimes que circundam o ciclo da vida."
Eu queria escrever algo que soasse bem e tivesse um significado profundo; minha performance literaria nao esta a todo vapor, considerando que tenho estado falando ingles por muito tempo.

Entretanto, ainda sei apreciar um bom conto, que cai certinho numa tarde de domingo, depois de uma refeicao com a familia e uma boa musica.

Obrigado pelo post, caro amigo.
Saudacoes !

nelsonbrazil disse...

E esta forca inoxidavel da repsodia preludica que as palavras laconicas definem os momentos sublimes que circundam o ciclo da vida."
Eu queria escrever algo que soasse bem e tivesse um significado profundo; minha performance literaria nao esta a todo vapor, considerando que tenho estado falando ingles por muito tempo.

Entretanto, ainda sei apreciar um bom conto, que cai certinho numa tarde de domingo, depois de uma refeicao com a familia e uma boa musica.

Obrigado pelo post, caro amigo.
Saudacoes !

Caleidoscópica. disse...

hola.
estava lendo suas histórias por acaso...não escreve mais, parou?

Iuri Andrade disse...

Opa, te achei no blog comida di butequim, guilherme.
Cara, "nós" é o nome do primeiro conto do livreto que fiz e a primeira faixa do disco que to gravando. QUe engraçado isso. HUSAUHSUHAUHSUHA

Muito bons contos.

Gabee disse...

Muito bom Guil.. não sabia que você escrevia assim!