segunda-feira, 19 de maio de 2008

Uma valsa para se despedir.

Uma valsa para se despedir.

(por Guilherme Gazotti)

Aquele dia por algum pressentimento divino, eu resolvi sair mais cedo do trabalho e por volta das cinco da tarde já dirigia para casa.
Era inverno, as ruas eram tristes e escuras, as arvores balançavam de tal forma que pareciam se despedir. Em todos os aspectos naturais e sentimentais o clima daquele fim de tarde carregava uma leve impressão de adeus.

Na porta de casa, lembrei-me do presente de Lílian, peguei no carro e entrei.

Lá estava ela, sentada no sofá. Um pouco abatida assistia pela milésima vez a brilhante atuação de Anthony Hopkins em “O Homem-Elefante”. Tais histórias de amizade e afeto causavam em Lílian uma alegria imensurável e a ajudava viver cada dia.

Amizade e afeto, sustentados pelo mais puro amor era o que eu recebia todos os dias durante esses quarenta e sete anos de casado.

Tal alegria transmitida pela minha chegada precoce naquele dia fez seus olhos brilharem e isso me deu a idéia de proporcionar a ela uma noite como nos velhos e belos tempos.

--Vamos sair para jantar hoje! Como nos velhos tempos!

Após convencê-la a colocar seu vestido mais bonito, saímos.

Sabe aquele sentimento de orgulho que um jovem sente ao passear pela rua com uma linda namorada segurando em seu braço? Pois eu nunca parei de senti-lo.
O sorriso no rosto de ambos era um alívio momentâneo, comparado aos tempos de sofrimento que enfrentamos com o tratamento ultimamente.

Sentamos em um dos restaurantes mais elegantes da cidade, não por acaso, aquele era o local onde ficamos noivos, e significava muito para nós estarmos depois de tantos anos sentados ali novamente.

Toda essa coletânea de recordações me afundava na mais profunda memória, uma nostalgia de momentos felizes e sem problemas tão sérios. Engoli as lágrimas, tentei não transparecer, bastava algum deslize emocional e eu desviaria meu foco. Apesar de toda essa saudade acompanhada da incerteza do “a qualquer momento” não podia me abalar.

Continuávamos recriando nossos velhos tempos, e fazendo da noite uma lembrança inesquecível.

Após jantarmos, uma caminhada pelas ruas pouco movimentadas e uma parada no parque central para continuar acendendo nossa memória.

Conversamos sobre o passado...
Sentados no banco, Lílian e eu, ela falava sem descanso, empolgada e feliz. Eu só ouvia, observava-a.

Os ventos frios afastaram as pessoas, as ruas molhadas refletiam as luzes que vinham das luminárias antigas do parque. O verde da grama aparada coberta de orvalho cercava a fonte que ao centro, estava desligada. Somente eu e ela, serenos.

Abracei-a forte, enquanto sentia sua respiração, ela segurava com força meu braço. E apesar da agonia que sentia em meu coração quanto ao futuro, pude também perceber que era um velho realizado de todas as maneiras. Mas o melhor de tudo foi ser amado por uma mulher em toda a vida, de todas as sensações que experimentei, ser contagiado pelo amor verdadeiro foi a melhor de todas.

Ficamos assim, abraçados por dez minutos ou mais, sem dizer uma palavra, com os corações juntos, transmitindo os pensamentos para o outro.

Na minha adolescência, fui um garoto problemático. Quando fui chamado para o exército, meu pai ressuscitou suas esperanças em mim.
Em uma cerimônia de premiação de soldados que haviam voltado da guerra, conheci minha mulher.

Seu irmão era soldado, e infelizmente não tinha retornado como os outros, porém a homenagem de honra ao mérito para a família me rendeu ver Lílian e seus pais subirem ao palco para receber o prêmio e os pêsames pelo garoto que morreu pelo país.

Lá estava ela... Sob o olhar de todos, seus cabelos dourados e seus olhos verdes me chamaram atenção e não consegui tirar meus olhos dela. Foi amor à primeira vista, da minha parte.

Seis meses até conquistar o primeiro encontro, e mais nove até conquistar o primeiro beijo.

É inevitável a lembrança do início quando algo se aproxima do fim. Inevitável e triste.
Depois do silêncio, um beijo.

De repente uma música começou a tocar bem baixo, distante não sabíamos de onde vinha. Não perdi a chance, e tirei-a para dançar.

Os passos lentos e cansados, os sorrisos abertos. E uma fina chuva começou a cair.

No parque somente eu e ela, pra lá e pra cá...

Seu queixo encostou-se ao meu ombro, apoiava. Os violinos distantes choravam e faziam as lágrimas se confundirem com a água que caia do céu sem estrelas.

Fiquei preocupado e sugeri que fôssemos embora, pois ela não poderia tomar chuva demais.

Silêncio...

...

“Não atrapalhe o momento”. Foram suas palavras interrompidas por um ligeiro pigarro. Fechou os olhos e voltou a dar seus passos. Pra lá e pra cá...
Nenhum carro mais passava. Nenhuma pessoa por lá, somente eu e ela, pra lá e pra cá...

Ela se cansava, enquanto perdia o tempo dos pés. Pediu-me que a carregasse e continuasse a valsa oculta que tocava distante.

Peguei-a no colo, rodava enquanto fixamente olhava para seu rosto, que alegre parecia querer inspirar o ar da madrugada. Os ventos eram frios, e a cada volta via como as árvores pareciam se despedir.

O volume da canção longínqua em minha cabeça ficou altíssimo e comecei a rodar mais rápido acompanhando o tempo da música que ouvia.

Parecia levitar-me do chão, num momento de êxtase que me dava uma sensação de estranheza, de repente a música parou. E jamais voltou.

Cansado me ajoelhei na grama com ela em meus braços. Ela abria os olhos enquanto eu tentava retomar meu fôlego. Não segurei as lágrimas. E quando elas escorriam, queimando minha pele, ela abriu os olhos, sorriu para mim. Com as mãos passando em meu rosto, enxugava as lágrimas, desceu até a minha boca, onde tocou seus dedos e os levou até seus lábios. Com muito frio, e dificuldade me deu outro sorriso voltando seus olhos contra os meus, em um segundo estava fria.


2 comentários:

Camila disse...

muito dahora Gui
pena que ela morre ;/
ishaihiauh

Beijos

Nelson disse...

"Somente eu e ela, serenos."
Definitely the best part. Keep it up, your writing is getting good man.
Cheers