quinta-feira, 27 de março de 2008

Até que eu prepare a forca...

Até que eu prepare a forca...
(por Guilherme Gazotti)

Minha sã consciência poderia dizer que esse seria nosso último encontro. Mas eu estava errado.
Juliana foi um amor de praia, que subiu a serra e à cabeça. Não deu certo, ela diz que pela minha ciumeira. E por culpa de nossos amigos em comum, freqüentava as rodas boêmias e a minha imaginação em noites em claro.
Juliana havia se tornado uma obsessão.
A manhã chegara. O sono de tão sutil contradizia a dosagem impressa nos vidros de calmantes que tomei.
Acordo, angústia... Meu estômago revirava, a dor de cabeça insuportável atribui-se aos tragos de vinho e lamúria. Tal tristeza causada por algo que ouvira da boca de Juliana ao findar da noite passada.

Saio para comprar cigarro. Duas quadras até o bar, o suficiente para encontrar o Bene, um amigo da faculdade. Um convite para um expresso e um bate-papo com o melhor aluno de psicologia. Ele não disse uma palavra, até eu abrir minha boca. Ele sabia sobre o que eu queria conversar.
--A Juli vai embora. Com outro.
E o Bene sabia o que isso significava para mim!
--Que isso cara? Você já falou com ela? –disse ele.
Como se eu pudesse mudar alguma coisa.
--Vale tanto a pena sofrer por alguém assim? –me perguntou.
-Agente se fala Bene...
-Olha lá o que você vai fazer hein?
O que eu poderia fazer seria outros quinhentos.

Dirigia tão rápido que a velocidade do carro acompanhava minha ansiedade. Em transe não sabia mais o que estava fazendo. Mas minha insanidade tinha um destino.
Era amor, obsessão doentia, uma pequena porção de esperança e uma sede incontrolável de beber deste vinho após atravessar um deserto de mágoas que resumiam minha vida medíocre.
Quando o ranger da porta expôs seu rosto calmo e feliz, um estremecimento seguido de raiva e indignação possuiu minha alma e me fez passar pela maior humilhação da vida.
As lágrimas escorriam enquanto meu tom de voz ainda não extravasava a linha da civilidade. Mas aí eu pude notar a repulsa que a minha presença causava em Juliana. E a cada olhar de desgosto as palavras ficavam mais baixas e altas. Baixas em nível, altas em volume. Soluçava, e não tinha
mais rumo algum, me humilhava e fazia um escândalo. E a cada sílaba notava que nenhuma poderia surtir efeito e mudar as coisas.
A porta entreaberta se abriu, revelando o segundo expectador do meu showzinho particular. Ele tinha idade para ser o pai dela, mas era quem a tirava de minha vida. Um olhar arrogante e um sorriso cínico me tiravam do sério. Aquele ar de “mais experiente” me deixava louco, o sangue fervia pelas veias, me corroíam de raiva, arrepiava meus pêlos, mas nada disso me tirava a imobilidade, e meu show estava quase terminando. Foi quando ele abriu a boca:
-Garoto, vai pra casa. Você perdeu!
O que eu fiz a seguir explica porque meu show estava quase terminando...
Uma bengala de ferro, por acaso foi a primeira coisa que eu vi pela frente, quando me libertei da imobilidade. O suficiente para o Grand Finale.
Enquanto Juliana gritava incansável, a imobilidade tomara conta de mim novamente, e só olhava para o sangue infiltrando no assoalho, hipnotizava.
Juliana completava a ligação... Não hesitei.

Ela no banco do passageiro, não percebia como eu corria com o carro, se ocupava em me chamar incansavelmente de louco.
Se ela desse mais atenção ao meu amor, e em tudo que eu faria por ela, talvez entendesse minhas recentes atitudes. Porque matei alguém, e porque a seqüestrei dessa maneira.
E nesses momentos de profunda lembrança e reflexão nostálgica, não ouvia mais seus gritos. Recordei-me do entardecer na praia, sentados na pedra onde batiam as ondas jurávamos amor eterno, e eu nem acreditava realmente nisso, os nossos beijos me consumiam e transformavam aquele flerte em um amor obsessivo que me condicionaria até o coração parar de bater.
Uma calma incomparável tomou conta do meu ser, e um sorriso contradisse o estado de um ser humano após assassinar alguém.
Um descuido... Um semáforo fechado. E Juliana salta do carro, gritando em choque, chorando de ódio. Tal desespero a impede de perceber o carro que cruzava a rua em que atravessava. O fim.
E a esperança de um dia quem sabe dizer uma vez mais “Eu te amo para sempre” se transformara em “Adeus”.

O motorista fugiu, não hesitei em pegá-la no colo e colocá-la no carro, procurava um hospital...
Ela já não me ouvia, nunca fez... Não respirava.
Sem rumo algum, cheguei a um lugar distante, dei-me conta que seria nosso ultimo momento juntos. Um abraço e um beijo de adeus me corrompiam, despedaçava meu coração de agonia. A cova já estava aberta, um buraco que nos separaria para sempre. Não conseguia levantar seu
corpo e enterrá-la, minhas forças físicas eram inúteis contra a minha mente. Mas enfim consegui, e com a ultima porção de terra, enterrava junto o resto da minha vida. Não valia mais a pena viver algum minuto a mais. Dirigi para casa.
Meu quarto obscuro e sádico, parecia atrair a necrose do resto de meus sentimentos vitais.
Poucos minutos, nostálgicos...
Grande parte das pessoas passa suas vidas inteiras procurando pelo amor verdadeiro, que às vezes é cruel quando não o aceitamos de coração aberto. Outras pessoas desperdiçam chances e vivem infelizes para sempre, por fingir ser quem realmente não é. E viver infeliz não vale a pena em nenhuma das condições humanas.
Talvez se eu saísse daquele quarto, pagaria o preço por ter cometido um crime, e passaria a maior parte da vida vendo o sol nascer quadrado, longe ainda do meu verdadeiro amor, e viveria infeliz. Mas como já disse, viver infeliz não vale a pena.
E a cada momento eu estava mais próximo de ser honesto comigo mesmo, aceitando a minha absoluta vontade de ter uma nova chance de encontrá-la e dizer “Eu te amo para sempre”.

2 comentários:

herilin disse...

Nuss muito linda sua history viuu

li quase chorei ake ..

;) bjO

erikitys disse...

nossa, dramático.