sábado, 31 de outubro de 2009

Meu encontro com o simpático Tomas Alfredson






(por Guilherme Nasser Gazotti)

Após contemplar a bela vertigem d'Os Gêmeos novamente, chego ao auditório onde os monitores de amarelo não sabem como arrumar aquela fila que em pouco tempo foi se tornando gigante. Alunos, não alunos, atores, atrizes, professores, curiosos, estranhos, cabeludos, barbudos, e pessoas.
Sou o primeiro da fila, junto a mim alguns amigos, mas bem mais junto a mim um rapaz de uns 30 anos mais ou menos curiosamente começa a chamar a atenção. Em percepção comum, todos ali afirmariam que ele tinha algum problema de retardo mental ou qualquer outro que o inferiorizasse. Eu deduzi esquizofrenia, e ao longo de nossa conversa ele começou a demonstrar um interesse no cinema e em livros, e começou a me perguntar bastante sobre "Deixa ela entrar" o filme a ser projetado, que eu falei que já tinha visto. O rapaz tirava conclusões sobre outras coisas que conversamos que eu achei genial. Eu ria as vezes pela forma engraçada que ele falava, mas era uma inocência e um interesse fora do normal.
Bem, a grande porta se abriu e entramos, no meio do cinema ficamos eu e mais os amigos. Lá na frente quase na primieira fila, por opção sentou-se o rapaz, que agora devamos esquecer. SHIU! o filme vai começar.
O filme sueco começa com os créditos em um fundo preto com névoa, e sem música alguma. Ideal para perceber que as pessoas se sentem mais incomodadas em ficar em um silêncio absoluto durante alguns minutos, do que enfrentar o trânsito por horas nessa cidade.
Primeira cena (...) Última cena.
O filme termina, algumas pessoas saem, e naquela meia luz ainda, e sobre o êxtase da pós obra-prima acessada, ouve-se uma voz que avisa: Mais cinco minutinhos e começamos o debate.
Senhoras e senhores: Leon Cakoff. E entra o criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e crítico de cinema. Belo pseudônimo, Cakoff.
-Tomas, e entra o gênio. Por último anuncia-se o nome da tradutora de Tomas que eu não me lembro agora.
Cakoff começa o debate fazendo uma declaração de amor para a película. "Esse é um dos filmes da minha vida, não é uma história de terror, é uma das histórias de amor mais lindas que já vi" e passa a palavra para o diretor que começa falando que está muito feliz de estar no Brasil e principalmente nesta cidade que chove o dia todo. Após uma breve apresentação de seu filme, nota-se sua timidez e nervosismo. Ele abre então para as perguntas do público.
Alfredson responde como foi trabalhar com as crianças, diz que é mais fácil, que os atores mirins não entendem o que é uma sequência, que o trabalho de cena por cena, sem outras ligações foi essencial. Curioso também, é que ele não entregou o roteiro para as crianças lerem e tirarem suas atuações através dos olhos, elas tiraram através dos ouvidos, pois o diretor, lia o roteiro e dizia como deveria ser feito, eles apenas copiavam, claro, com a genialidade de atores tão jovens. Para minha tristeza, Tomas diz que não tem nenhum diretor de cinema na atualidade que usa como diretriz, para alguma idéia que seja, ele disse que procura assistir os filmes como expectadores normais que vão ao cinema. Bem, eu achei muitas cenas do filme parecida com a direção de Gus Van Sant, quando essa pergunta foi feita, Van Sant veio a minha cabeça, mas, enfim...
Tomas falou sobre os direitos autorais do livro que foram vendidos a Hollywood. Em uma crítica demonstrou seu medo quanto à produção estadunidense que será dirigida por Matt Reeves (Cloverfield). Disse que não entende porque os estados unidos tem dificuldades em aceitar filmes falados em língua estrangeira. Talvez seja porquê eles querem comer a ultra mega pipoca do cinemark e não querem se preocupar em ficar lendo as legendas. Enfim, vamos esperar esse remake.
As perguntas sobre a têndencia vampirescas foi inevitável, sobre isso Tomas foi bem breve, disse que quando começaram a trabalhar o projeto de Deixa ela Entrar, quatro anos atrás, não existia esse fascínio. E quanto aos filmes e seriados que nos assombram pela sua péssima narrativa, Tomas disse que nunca viu nenhum.
As peguntas aconteciam, quando de repente, o rapaz da entrada na fila resolveu perguntar: "A cena final quando ela está dentro da caixa, no trem com o menino, ela virou um gatinho?" Todos caíram na risada, menos Tomas que demorou pois era traduzido sobre tal pergunta capciosa, e enfim riu. Eu não conseguia parar de rir. Tomas, em tom de brincadeira e em inglês, respondeu que nunca tinha ouvido essa suposição, mas que podia ser, valiam todas interpretações, resposta que ficou sem tradução. Demorou-se até todos recuperarem seu fôlego e sua concentração quebrada pela grande pergunta.
Foi o momento mais verdadeiro do evento, eu fico imaginando, como é ver os filmes com aquela cabeça, as interpretações fantásticas que deve-se tirar depois. Gostei muito da pergunta, e da forma como foi feita. Ele não esperou o microfone chegar, nem respeitou a ordem, apenas interrompeu, falando alto, como se ele precisasse ouvir a resposta para continuar a viver.
Tomas continuou respondenso as perguntas, e uma de suas afirmações, a que mais me chamou atenção na verdade, foi a de afirmar. "Oskar and Eli are the same person, they are the same person, Eli can be the dark side of his live" e completou dizendo que talvez fosse possível que Eli fosse a imaginação de Oskar.
Sobre outras coisas mais técnicas, Tomas Alfredson, falou de alguns métodos no processo de criatividade, brevemente passou ao público três. A primeira, é de ouvir uma mesma melodia todos os dias, e criar através desse sentimento de continuidade, para não destoar a criação. A segunda, vai um pouco nesse sentido, quando ele diz que se imagina subindo uma reta segurando uma corda, sem poder se soltar. E a terceira é a de criar baseado em uma imagem estática, um quadro por exemplo.
O diretor deixou claro que seu filme é aberto as diversas interpretações do público. Em minha primeira interpretação, ajudada com uma conversa com meu amigo Thiago Mattar após a primeira vez que vimos, foi de que o filme resgata toda a intenção dos vampiros da antiguidade, deixando os clichês de lado, e utillizando a sedução e manipulação. Eli é uma pessoa má, que usa a inocência de um garoto sem amigos, que acaba se apaixonando por ela/ele, e se torna corajoso de um dia para o outro. Oskar acha então que se libertou dos seus medos, que ele agora é alguém que enfrenta seus problemas, porém fica preso à Eli o resto de sua vida.
Isso é o mais interessante quando nos deparamos com obras primas, diversas interpretações. Até mesmo achar que a garota virou um gato no final.
O simpático Tomas terminou o debate tirando uma foto do público com seu iphone amarelo.
este conto é baseado em fatos reais, nenhuma passagem é ficcional.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Nós

NÓS
(por Guilherme Gazotti)

Ele dirigia na estrada vazia, como se fosse o único caminho de sua vida, sem escolhas, ele aumentava o volume do rádio e sorria.
Aquela reta que parecia não ter fim, que ia além do horizonte do oceano, iluminou-se, e agora ele olhava para o lado e sorria ainda mais.
Seria de uma total perfeição que nada mais parecia efêmero. Parou o carro ao lado daquela montanha de flores amarelas, deitou na grama macia e ficou olhando o céu que reluzia o sorriso mais lindo.
Deitada, ela segurava seu braço com as duas mãos e colocava a cabeça em seu ombro e não dizia nada. Por horas ficaram, não tinham fome, não tinham sede, o momento de transe era essencial para seus corações baterem sem descanso.
O descanso eterno dessa vez estava presente na carne. Queria passar o melhor carnaval de suas vidas, o verão mais colorido ouvindo as músicas que os faziam pular separados e a se olharem de vez em quando, como se dissessem que nada daquilo fazia sentido se não houvesse aquela boca para beijar no fim da noite.
Juntava-se repentinamente o casal, um abraço no ritmo da canção, suor e risos.
Pois assim ficaram deitados na grama imaginando o que aconteceria se chegassem ao final daquela reta deserta.
Um velho passou pela estrada dirigindo seu carro, que tinham balões azuis e amarelos voando no vento, ele usava uma cartola verde, seu carro colorido buzinava a cada metro percorrido. Saíram do transe e levantaram os troncos para observar a passagem do único automóvel. E tinha um balão bem ao fundo, mas não perceberam até que o velho passasse, riram de toda aquela maluquice e depois alguém observou o balão e comentou. Em um minuto estavam no balão, sobrevoando o verde daquele local, viram uma queda d água e outras coisas mais.
Era impressionante como tudo o deixava feliz ao lado daquela pessoa.
Uma pequena casa na frente de onde descera o balão foi onde eles passaram a noite. Tomaram vinho, suaram sangue.
Nada é tão bem visto somente com os olhos, é preciso coração para entender cada detalhe.
O detalhe de um sorriso, um olhar que poupam as palavras. Um carinho na orelha, um beijo no canto do pescoço. Um programa que não foi como esperado, mas que souberam tirar proveito de uma forma inexplicável. A sintonia perfeita entre um metro e oitenta dele e um metro e sessenta e pouco dela.
De manhã acharam o carro, e foram em direção ao litoral. AZUL.
A maré lhes dizia bem-vindos. Parabéns por confiarem na reta e ir até o fim.
E assim foi.
Depois disso foi carnaval...
Voltaram para descansar e na hora de se separarem, o abraço foi de tamanha intensidade que tocavam sinos de enfeites vienenses, serpentinas enroladas em seu corpo ela levava porta adentro.
Na maioria das vezes que pensamos que tudo será tão perfeito, não acontece o que se espera, e mesmo sendo bom, sempre existe a desilusão de não atingir as expectativas, pois olhamos tudo, na maioria das vezes, somente com os olhos.
Uma viagem de carnaval para se guardar na memória, abrir os olhos, são sete e meia, e perceber que tudo não passou de um sonho.

(…)

Pode até ser que isso não dê em nada,
Pode até ser que o barco vire no final, com o sol lá no alto, o mar calmo


Mas as suposições eu deixo pra lá, e fico pra cá da tempestade...
Enrolo-me nos nós, e cá pra nós, estamos sós, um dia a sós


E faz tempo que eu não saio por aí, sem saber aonde ir
Ela me olha nos olhos e eu me perco nos braços

Nós somos fracos pra lutar com o coração?

Só de pensar em ir e ter que deixar por aqui, já me aperta aquele nó...
Eu sei que preciso me contentar por já gostar de alguém que goste também.
Nós.

domingo, 1 de junho de 2008

A Garota, o cachorro e o fundo branco.

A Garota, o cachorro e o fundo branco.

(por Guilherme Gazotti)

Refugiar-me foi a maneira mais fácil que encontrei para entender o que me acontecia.
A maré que sempre está por aqui não foi de faltar logo hoje, e me acompanha. Quem chega também para o funeral das ilusões é a alvorada cinzenta carregando com ela gaivotas, parecem que por obrigação elas sobrevoam as águas todos os dias.

Sentado na areia apoio as mãos em meus joelhos, e começo a exercitar meus pensamentos, que aconteciam de acordo com o som das ondas tão calmas.

Minha vida se tornara naquele momento uma poesia livre, que desafiava todas as métricas e rimas.

Algumas garrafas de champagne, velas e cinzas se confundiam na areia. Afinal eram as marcas deixadas pelos que festejaram a chegada de mais um ano, como se um novo ano significasse vida nova.

A praia silenciosa era tomada pelo vazio, da alma. E tinha aquele barco a balançar no fim do horizonte, abandonado deixava a manhã com os mais enfáticos sinais de ressaca.

A paisagem não era das mais belas, talvez nem perto de agradável chegasse, mas qualquer tipo de luz hoje me bastava.

Começo devagar, mas as manchas invadem meu horizonte, pisco uma, até três vezes e some.

Algo que me acompanha desde meu primeiro segundo de vida, é mais fácil de aceitar, do que algo que pega de surpresa. Acostumar e entender, e os fiz.

E nesses momentos de arte pura, vale lembrar daquele amor platônico e as marcas de sangue que ele deixa, a lágrima é o clímax quando se trata de uma tragédia.

O sol saía de trás de uma nuvem, e feliz por vê-lo, mudou minha obra. Amarelo ouro e pinceladas no quadrado alvo. Finalmente ganhara cor, o dia também.

Meu coração vil começou a conflitar novamente com o destino, seriam as últimas horas desse homem, que morrerá com vinte e cinco anos, e nascerá com vinte e cinco outro.

O problema era viver de pintar quadros, fiz a fortuna necessária para viver bem, se podemos dizer que viver só é viver bem.

Um descuido faz minha cabeça virar para a esquerda e percebo alguém que caminhava junto ao mar, vinha longe, mas vinha. Antes parecia que o mundo todo descansava da bebedeira da festa, agora vejo que duas pessoas não. Uma mulher, triste e angustiada passa sem nem perceber a minha presença. Parecia que a cada momento o cenário ia clareando e melhorando para a pintura, talvez fosse melhor esperar e fazer uma obra-prima. Mas o tempo ao mesmo tempo em que deslumbrava a inspiração, antagônico era com meu tempo pessoal. Um relógio dentro do cérebro em contagem regressiva para desativar a sensibilidade da visão. Meu avô cegou quando era pai, meu pai morreu antes de cegar.

Já se passaram horas. As crianças, que não bebem acordaram seus pais bem cedo para brincar na areia. Meu quadro era só o tom do amarelo que o sol me inspirou.

A manhã era só das crianças que corriam, e gritavam. O som agradável das vozes inocentes quebrava o silêncio sereno. As perninhas correndo, as pás e os castelos de areia, o colorido das roupas, tornavam o ambiente vertiginoso. Era hora de me levantar e desistir da minha busca por inspiração totalmente vã, e fazia isso quando uma menina de uns nove anos se aproximou com seu cachorro. Oi, ela disse, meu pai falou que você estava pintando um quadro, como ele é? Veja, respondi mostrando e virando-o para ela. Não consigo, eu sou cega, mas meu pai disse que minha imaginação não tem igual, então se você me disser o que pintou, eu conseguirei imaginar direitinho. Era triste ter que dizer um fundo branco e algumas manchas em amarelo, pois não disse. O que você imagina, perguntei desafiando-a. Ah, um cachorro grande como o meu correndo na beira do mar, eu não sei como é o mar, mas imagino bastante água, meu pai disse que no horizonte o mar se confunde com o céu. É verdade! O quê, que o mar se confunde mesmo com céu? Não, quer dizer também, mas eu estou pintando um cachorro, bem parecido com o seu, uma garota muito feliz o abraçando, e ao fundo o horizonte que confunde o céu e o mar. Se você me disser que é tão feliz como essa garota do quadro, dou-lhe de presente. Sim! Meu pai sempre me falou que não poder enxergar é bom para a imaginação, e a criatividade pode te levar a lugares incríveis.

A garota me fez derramar lágrimas, que paravam em meu sorriso conflitante. O destino não é tão cruel assim, não aceitarei o fato de morrer um homem com vinte e cinco anos e nascer um outro homem, serei o mesmo, enxergando pra dentro agora.
Enquanto conversava com a garotinha, pintava o quadro, ela não se movia e ficava passando a mão na pelagem do canino, era seu único movimento, e isso me ajudava muito. Seu pai se aproximava lentamente, uma piscadela para mim, me fazia não alarmar sobre a sua proximidade. Ele estático admirava sua filha, como adulta ela é.

Ela falou sobre a escola e suas notas. Contou-me que o pai era piloto de avião, e como imaginava ser um avião.

E seu pai continuava ali parado, olhando orgulhoso para ela.

Alguns traços a mais na tela, e o cachorro estava pronto, idêntico ao Labrador que a guiava.

A garota feliz que pintava, sorria como ela sorria enquanto me falava da primeira vez que veio a praia, o quanto estranho achou a areia, e o quanto salgado achou o mar. O nariz arrebitado e pequeno combinava com a boca e as bochechas avermelhadas, o cabelo louro e fino reluzia a luz do sol, os olhos, bem, os olhos eram de cegos, mas brilhavam como de poucos que viam.

A garota no quadro estava pronta, o fundo era o mar, e me faltava ainda utilizar aquele primeiro tom de amarelo para definir o sol, mas por um momento não consegui retomar a pintura, pois as manchas voltaram.

Bom, eu preciso ir embora, meu pai deve estar preocupado, disse a garotinha. Eu esfregava meus olhos e não a ouvia direito, mas bem ouvi quando ela me pediu o quadro que havia prometido. Ele ainda estava incompleto, não havia o mar se confundindo com o céu no horizonte, o sol só tinha cor de sol.

Peguei o quadro e entreguei a ela, lembrei que a pintura em sua mente era rica nos detalhes, e que não fazia diferença o quadro ter a menina e o cachorro sem nada ao fundo. Deixei por conta daquela imaginação infantil de uma cega, enquanto eu só a imaginava dando seus curtos passos na areia de mão dada com o piloto de avião. Imaginava..

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Uma valsa para se despedir.

Uma valsa para se despedir.

(por Guilherme Gazotti)

Aquele dia por algum pressentimento divino, eu resolvi sair mais cedo do trabalho e por volta das cinco da tarde já dirigia para casa.
Era inverno, as ruas eram tristes e escuras, as arvores balançavam de tal forma que pareciam se despedir. Em todos os aspectos naturais e sentimentais o clima daquele fim de tarde carregava uma leve impressão de adeus.

Na porta de casa, lembrei-me do presente de Lílian, peguei no carro e entrei.

Lá estava ela, sentada no sofá. Um pouco abatida assistia pela milésima vez a brilhante atuação de Anthony Hopkins em “O Homem-Elefante”. Tais histórias de amizade e afeto causavam em Lílian uma alegria imensurável e a ajudava viver cada dia.

Amizade e afeto, sustentados pelo mais puro amor era o que eu recebia todos os dias durante esses quarenta e sete anos de casado.

Tal alegria transmitida pela minha chegada precoce naquele dia fez seus olhos brilharem e isso me deu a idéia de proporcionar a ela uma noite como nos velhos e belos tempos.

--Vamos sair para jantar hoje! Como nos velhos tempos!

Após convencê-la a colocar seu vestido mais bonito, saímos.

Sabe aquele sentimento de orgulho que um jovem sente ao passear pela rua com uma linda namorada segurando em seu braço? Pois eu nunca parei de senti-lo.
O sorriso no rosto de ambos era um alívio momentâneo, comparado aos tempos de sofrimento que enfrentamos com o tratamento ultimamente.

Sentamos em um dos restaurantes mais elegantes da cidade, não por acaso, aquele era o local onde ficamos noivos, e significava muito para nós estarmos depois de tantos anos sentados ali novamente.

Toda essa coletânea de recordações me afundava na mais profunda memória, uma nostalgia de momentos felizes e sem problemas tão sérios. Engoli as lágrimas, tentei não transparecer, bastava algum deslize emocional e eu desviaria meu foco. Apesar de toda essa saudade acompanhada da incerteza do “a qualquer momento” não podia me abalar.

Continuávamos recriando nossos velhos tempos, e fazendo da noite uma lembrança inesquecível.

Após jantarmos, uma caminhada pelas ruas pouco movimentadas e uma parada no parque central para continuar acendendo nossa memória.

Conversamos sobre o passado...
Sentados no banco, Lílian e eu, ela falava sem descanso, empolgada e feliz. Eu só ouvia, observava-a.

Os ventos frios afastaram as pessoas, as ruas molhadas refletiam as luzes que vinham das luminárias antigas do parque. O verde da grama aparada coberta de orvalho cercava a fonte que ao centro, estava desligada. Somente eu e ela, serenos.

Abracei-a forte, enquanto sentia sua respiração, ela segurava com força meu braço. E apesar da agonia que sentia em meu coração quanto ao futuro, pude também perceber que era um velho realizado de todas as maneiras. Mas o melhor de tudo foi ser amado por uma mulher em toda a vida, de todas as sensações que experimentei, ser contagiado pelo amor verdadeiro foi a melhor de todas.

Ficamos assim, abraçados por dez minutos ou mais, sem dizer uma palavra, com os corações juntos, transmitindo os pensamentos para o outro.

Na minha adolescência, fui um garoto problemático. Quando fui chamado para o exército, meu pai ressuscitou suas esperanças em mim.
Em uma cerimônia de premiação de soldados que haviam voltado da guerra, conheci minha mulher.

Seu irmão era soldado, e infelizmente não tinha retornado como os outros, porém a homenagem de honra ao mérito para a família me rendeu ver Lílian e seus pais subirem ao palco para receber o prêmio e os pêsames pelo garoto que morreu pelo país.

Lá estava ela... Sob o olhar de todos, seus cabelos dourados e seus olhos verdes me chamaram atenção e não consegui tirar meus olhos dela. Foi amor à primeira vista, da minha parte.

Seis meses até conquistar o primeiro encontro, e mais nove até conquistar o primeiro beijo.

É inevitável a lembrança do início quando algo se aproxima do fim. Inevitável e triste.
Depois do silêncio, um beijo.

De repente uma música começou a tocar bem baixo, distante não sabíamos de onde vinha. Não perdi a chance, e tirei-a para dançar.

Os passos lentos e cansados, os sorrisos abertos. E uma fina chuva começou a cair.

No parque somente eu e ela, pra lá e pra cá...

Seu queixo encostou-se ao meu ombro, apoiava. Os violinos distantes choravam e faziam as lágrimas se confundirem com a água que caia do céu sem estrelas.

Fiquei preocupado e sugeri que fôssemos embora, pois ela não poderia tomar chuva demais.

Silêncio...

...

“Não atrapalhe o momento”. Foram suas palavras interrompidas por um ligeiro pigarro. Fechou os olhos e voltou a dar seus passos. Pra lá e pra cá...
Nenhum carro mais passava. Nenhuma pessoa por lá, somente eu e ela, pra lá e pra cá...

Ela se cansava, enquanto perdia o tempo dos pés. Pediu-me que a carregasse e continuasse a valsa oculta que tocava distante.

Peguei-a no colo, rodava enquanto fixamente olhava para seu rosto, que alegre parecia querer inspirar o ar da madrugada. Os ventos eram frios, e a cada volta via como as árvores pareciam se despedir.

O volume da canção longínqua em minha cabeça ficou altíssimo e comecei a rodar mais rápido acompanhando o tempo da música que ouvia.

Parecia levitar-me do chão, num momento de êxtase que me dava uma sensação de estranheza, de repente a música parou. E jamais voltou.

Cansado me ajoelhei na grama com ela em meus braços. Ela abria os olhos enquanto eu tentava retomar meu fôlego. Não segurei as lágrimas. E quando elas escorriam, queimando minha pele, ela abriu os olhos, sorriu para mim. Com as mãos passando em meu rosto, enxugava as lágrimas, desceu até a minha boca, onde tocou seus dedos e os levou até seus lábios. Com muito frio, e dificuldade me deu outro sorriso voltando seus olhos contra os meus, em um segundo estava fria.


quinta-feira, 27 de março de 2008

Até que eu prepare a forca...

Até que eu prepare a forca...
(por Guilherme Gazotti)

Minha sã consciência poderia dizer que esse seria nosso último encontro. Mas eu estava errado.
Juliana foi um amor de praia, que subiu a serra e à cabeça. Não deu certo, ela diz que pela minha ciumeira. E por culpa de nossos amigos em comum, freqüentava as rodas boêmias e a minha imaginação em noites em claro.
Juliana havia se tornado uma obsessão.
A manhã chegara. O sono de tão sutil contradizia a dosagem impressa nos vidros de calmantes que tomei.
Acordo, angústia... Meu estômago revirava, a dor de cabeça insuportável atribui-se aos tragos de vinho e lamúria. Tal tristeza causada por algo que ouvira da boca de Juliana ao findar da noite passada.

Saio para comprar cigarro. Duas quadras até o bar, o suficiente para encontrar o Bene, um amigo da faculdade. Um convite para um expresso e um bate-papo com o melhor aluno de psicologia. Ele não disse uma palavra, até eu abrir minha boca. Ele sabia sobre o que eu queria conversar.
--A Juli vai embora. Com outro.
E o Bene sabia o que isso significava para mim!
--Que isso cara? Você já falou com ela? –disse ele.
Como se eu pudesse mudar alguma coisa.
--Vale tanto a pena sofrer por alguém assim? –me perguntou.
-Agente se fala Bene...
-Olha lá o que você vai fazer hein?
O que eu poderia fazer seria outros quinhentos.

Dirigia tão rápido que a velocidade do carro acompanhava minha ansiedade. Em transe não sabia mais o que estava fazendo. Mas minha insanidade tinha um destino.
Era amor, obsessão doentia, uma pequena porção de esperança e uma sede incontrolável de beber deste vinho após atravessar um deserto de mágoas que resumiam minha vida medíocre.
Quando o ranger da porta expôs seu rosto calmo e feliz, um estremecimento seguido de raiva e indignação possuiu minha alma e me fez passar pela maior humilhação da vida.
As lágrimas escorriam enquanto meu tom de voz ainda não extravasava a linha da civilidade. Mas aí eu pude notar a repulsa que a minha presença causava em Juliana. E a cada olhar de desgosto as palavras ficavam mais baixas e altas. Baixas em nível, altas em volume. Soluçava, e não tinha
mais rumo algum, me humilhava e fazia um escândalo. E a cada sílaba notava que nenhuma poderia surtir efeito e mudar as coisas.
A porta entreaberta se abriu, revelando o segundo expectador do meu showzinho particular. Ele tinha idade para ser o pai dela, mas era quem a tirava de minha vida. Um olhar arrogante e um sorriso cínico me tiravam do sério. Aquele ar de “mais experiente” me deixava louco, o sangue fervia pelas veias, me corroíam de raiva, arrepiava meus pêlos, mas nada disso me tirava a imobilidade, e meu show estava quase terminando. Foi quando ele abriu a boca:
-Garoto, vai pra casa. Você perdeu!
O que eu fiz a seguir explica porque meu show estava quase terminando...
Uma bengala de ferro, por acaso foi a primeira coisa que eu vi pela frente, quando me libertei da imobilidade. O suficiente para o Grand Finale.
Enquanto Juliana gritava incansável, a imobilidade tomara conta de mim novamente, e só olhava para o sangue infiltrando no assoalho, hipnotizava.
Juliana completava a ligação... Não hesitei.

Ela no banco do passageiro, não percebia como eu corria com o carro, se ocupava em me chamar incansavelmente de louco.
Se ela desse mais atenção ao meu amor, e em tudo que eu faria por ela, talvez entendesse minhas recentes atitudes. Porque matei alguém, e porque a seqüestrei dessa maneira.
E nesses momentos de profunda lembrança e reflexão nostálgica, não ouvia mais seus gritos. Recordei-me do entardecer na praia, sentados na pedra onde batiam as ondas jurávamos amor eterno, e eu nem acreditava realmente nisso, os nossos beijos me consumiam e transformavam aquele flerte em um amor obsessivo que me condicionaria até o coração parar de bater.
Uma calma incomparável tomou conta do meu ser, e um sorriso contradisse o estado de um ser humano após assassinar alguém.
Um descuido... Um semáforo fechado. E Juliana salta do carro, gritando em choque, chorando de ódio. Tal desespero a impede de perceber o carro que cruzava a rua em que atravessava. O fim.
E a esperança de um dia quem sabe dizer uma vez mais “Eu te amo para sempre” se transformara em “Adeus”.

O motorista fugiu, não hesitei em pegá-la no colo e colocá-la no carro, procurava um hospital...
Ela já não me ouvia, nunca fez... Não respirava.
Sem rumo algum, cheguei a um lugar distante, dei-me conta que seria nosso ultimo momento juntos. Um abraço e um beijo de adeus me corrompiam, despedaçava meu coração de agonia. A cova já estava aberta, um buraco que nos separaria para sempre. Não conseguia levantar seu
corpo e enterrá-la, minhas forças físicas eram inúteis contra a minha mente. Mas enfim consegui, e com a ultima porção de terra, enterrava junto o resto da minha vida. Não valia mais a pena viver algum minuto a mais. Dirigi para casa.
Meu quarto obscuro e sádico, parecia atrair a necrose do resto de meus sentimentos vitais.
Poucos minutos, nostálgicos...
Grande parte das pessoas passa suas vidas inteiras procurando pelo amor verdadeiro, que às vezes é cruel quando não o aceitamos de coração aberto. Outras pessoas desperdiçam chances e vivem infelizes para sempre, por fingir ser quem realmente não é. E viver infeliz não vale a pena em nenhuma das condições humanas.
Talvez se eu saísse daquele quarto, pagaria o preço por ter cometido um crime, e passaria a maior parte da vida vendo o sol nascer quadrado, longe ainda do meu verdadeiro amor, e viveria infeliz. Mas como já disse, viver infeliz não vale a pena.
E a cada momento eu estava mais próximo de ser honesto comigo mesmo, aceitando a minha absoluta vontade de ter uma nova chance de encontrá-la e dizer “Eu te amo para sempre”.